O “Plano Motosserra” implementado pelo presidente argentino Javier Milei tornou-se um divisor de águas na política brasileira. Com a promessa de sanar a economia através de cortes drásticos de gastos públicos, fim de subsídios e desregulamentação, o modelo ultraliberal impõe um dilema que ecoa nas campanhas presidenciais do Brasil: até onde o ajuste fiscal justifica o sacrifício social?
O impacto do choque econômico
Após quase três anos de gestão, a Argentina apresenta indicadores divergentes. Se por um lado o país equilibrou as contas públicas e viu a inflação despencar de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025, por outro, a realidade das ruas é de desespero. O desemprego atingiu 7,9%, o patamar mais alto desde 2021, e a pobreza voltou a crescer, atingindo um terço da população.
A desilusão com o modelo
O desgaste das medidas reflete-se na queda de popularidade de Milei, especialmente entre as classes de menor renda. Pequenos empreendedores sentem o baque da retração do consumo. Gustavo Raúl Pérez, dono de uma loja de ferragens em Buenos Aires, exemplifica o aperto no bolso do consumidor e o impacto para pequenos empreendedores. “Eu costumava vender 10 carrinhos de mão. Agora, vendo um.”
“Votei em Milei acreditando que ele traria mudanças para melhor, mas ele realmente me decepcionou”, afirmou Pérez à agência Reuters.
Debate político no Brasil
A polarização brasileira importou o debate. Flávio Bolsonaro (PL) defende o modelo argentino como exemplo para o Brasil. Durante o lançamento de sua campanha, o senador afirmou: “Quando o presidente Milei assumiu o cargo, a Argentina estava falida. Inflação acima de 200% ao ano. Mais da metade da população vivendo na pobreza”.
“Então, chegou Javier. E cortou a própria carne do Estado com uma motosserra. Reduziu ministérios pela metade. Acabou com privilégios. Equilibrou as contas. E os resultados estão à vista de todos”, acrescentou Flávio, em espanhol.
Em contrapartida, o governo Lula utiliza os efeitos colaterais da política argentina para criticar a proposta de um “tesouraço” no Brasil. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, rebateu comparações afirmando: “O risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta”.
Limites do ajuste fiscal
Especialistas apontam que a sustentabilidade do plano argentino enfrenta barreiras sociopolíticas. Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, explica o custo da transição: “A sustentação do equilíbrio fiscal, viabilizada pela contenção de despesas operacionais, transferências a aposentadorias e redução de subsídios às tarifas públicas, exerceu pressão direta sobre a renda disponível das famílias”.
A discussão central para o futuro do Brasil gira em torno da necessidade de controle da dívida pública, que atingiu R$ 11,05 trilhões, sem repetir a ruptura abrupta observada no país vizinho. A maioria dos economistas defende caminhos mais graduais, ressaltando que a realidade institucional e social brasileira é distinta da argentina, tornando a “motosserra” uma ferramenta de difícil aplicação local.
Rádio Cidade Livre FM – 88,7