O fenômeno do cancelamento nas redes sociais passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Se antes uma polêmica digital era capaz de encerrar carreiras e resultar em prejuízos financeiros permanentes, hoje o cenário é outro: as mobilizações coletivas tornaram-se mais frequentes, porém significativamente mais rápidas e menos impactantes para a reputação a longo prazo.
A evolução dos linchamentos virtuais
O caso da cantora Karol Conká, eliminada do Big Brother Brasil 21 com 99,17% dos votos, marcou um momento de auge da cultura de punição digital, gerando até ameaças a familiares. Em contrapartida, episódios recentes envolvendo influenciadores como Viih Tube e Eliezer, que enfrentaram críticas do Ministério Público do Trabalho, mostram que figuras públicas conseguem retomar suas atividades — como o lançamento de cursos e novos projetos — pouco tempo após o escândalo.
“Isso não significa que o cancelamento perdeu força, mas que ele passou a operar de maneira mais fragmentada, acelerada e diretamente articulada a perfis de fofoca, influenciadores, fandoms [fã-clubes] e outros agentes que transformam controvérsia em engajamento”, explica Carol Govari, doutora em comunicação que se debruçou na pesquisa sobre o tema.
O papel da economia da atenção
A percepção de que o cancelamento se tornou uma sentença definitiva parece estar perdendo espaço para uma dinâmica de disputas constantes por engajamento. Para especialistas, a limitação da atenção humana faz com que as polêmicas se sobreponham, impedindo que o público foque em um único alvo por um período prolongado.
“Talvez esteja enfraquecida a ideia de cancelamento como uma sentença definitiva, capaz de apagar uma pessoa da vida pública, mas continuam muito presentes as disputas de reputação, os julgamentos coletivos, a intimidação e a pressão pública”, menciona Govari.
Impactos da conectividade e da pandemia
O aumento no número de influenciadores e a facilidade de obter selos de verificação nas redes sociais mudaram a forma como a audiência se relaciona com figuras públicas. Maiara Orlandini, doutora em comunicação, pontua que a transição da sociedade para um estado de hiperconexão alterou o comportamento coletivo.
“No começo dos anos 2000 a gente não tinha tanto esse fenômeno, não eram muitas pessoas que tinham uma influência digital”, menciona Orlandini. “Antes, a gente tinha que fazer uma separação entre mobilizações políticas digitais e mobilizações políticas offline, como se fossem dois mundos separados, porque a sociedade ela não era tão conectada.”
Complementando esse cenário, a biblioteconomista Dulce Hirli destaca que a retomada das atividades presenciais após o isolamento social da Covid-19 reduziu o tempo que os internautas dedicam a vigiar a vida alheia. “No momento que a gente vai saindo da pandemia, a gente começa a perceber que talvez haja uma diminuição [dos cancelamentos], na verdade, a gente começou a ter a nossa vida de volta, não necessariamente ficamos mais presos nas plataformas o tanto que a gente ficou”, reflete.
Banalização e rastros digitais
Apesar da efemeridade atual, os rastros deixados na internet continuam sendo um risco, permitindo que polêmicas antigas sejam resgatadas a qualquer momento, como ocorreu com o cantor Livinho. Contudo, a “rotinização” do termo tem gerado um efeito de exaustão no público.
“Houve uma certa rotinização do cancelamento. A palavra passou a ser usada para situações muito diferentes entre si, de denúncias graves a controvérsias que duram poucas horas, o que pode produzir a sensação de banalização”, justifica Govari.
Ao fim, a dinâmica do ambiente digital tornou-se um ciclo veloz. “Ao mesmo tempo que hoje nós estamos cancelando alguém, amanhã já ocorre outro cancelamento e o interesse público foca nessa segunda pessoa e esquece da primeira. Então, hoje, é muito difícil captar a atenção do público no online por muito tempo”, conclui Orlandini.
Rádio Cidade Livre FM – 88,7